Em entrevista, a especialista em saúde mental, Simone Nascimento, fala sobre os desafios e as melhorias para mães trabalhadoras.

02/05/2023
Crédito Simone Nascimento
Crédito Simone Nascimento

Desde a infância, Simone Nascimento sonhou em se tornar médica ou astronauta. Com ideais idealistas e sonhadoras, ela queria mudar o mundo, sua família e sua própria vida, contrariando as expectativas para uma menina negra e pobre nascida na Baixada Fluminense. Ela finalmente realizou seu sonho, formando-se em medicina e especializando-se em saúde da mulher e diagnóstico de câncer de mama.

Durante sua carreira, a Simone percebeu a importância da promoção de saúde, além do diagnóstico de doenças já instaladas. Como resultado, ela se especializou em saúde mental corporativa pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, e atualmente está estudando medicina do estilo de vida.

Além de sua carreira médica, ela é professora convidada na Pós-graduação de Saúde Mental e Emocional nas organizações na Católica de SC. Ela também atua como Head de Soluções em Saúde Mental e Qualidade de Vida e mentora de startups na B2Mamy, uma socialtech que tem como objetivo empoderar mulheres e promover sua liberdade econômica.

A cultura empresarial muitas vezes não oferece suporte adequado para as mães trabalhadoras. Como você enxerga essa situação e quais seriam as mudanças necessárias para garantir melhores condições?

A situação das mães trabalhadoras é uma questão complexa e preocupante. Gestantes e mães recentes são ainda objeto de grande preconceito e exclusão no mercado de trabalho e a estabilidade do emprego após a licença maternidade muitas vezes não é levada a sério.

Um estudo da FGV aponta que 50% das mulheres são demitidas em até 2 anos após o fim da licença maternidade.

Dados de 2021 do IBGE mostram que apenas 54,6% das mães entre 25 e 49 anos, com filhos até 03 anos estão empregadas formalmente.

O fato de que o cuidado invisível com a casa e os filhos ainda ser considerado uma "coisa de mulher" faz com que elas tenham duplas e até triplas jornadas e ainda sejam penalizadas por isso nos ambientes corporativos.

Isso gera problemas de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e leva a dificuldades financeiras e emocionais.

Para mudar esse cenário, é preciso que as empresas criem políticas e práticas que promovam a igualdade de oportunidades e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Mas a meu ver, o pontapé inicial precisa ser sobre a conscientização para o fato de que a maternidade é sobre um bem comum. A criança não é só da mãe. Quando se pensa o lugar de uma mulher que é mãe, é preciso considerar o afeto do outro genitor/a, dos tios, avós, irmãos e toda a rede de relacionamentos que compõem a vida de alguém. É preciso pensar sobre o futuro do país, do mercado de trabalho e das questões previdenciárias.

Não é possível que alguém que tenha um papel social tão importante, que é carregar futuros e possibilitar novas vivências afetivas para as demais pessoas através da vida que ela gera, seja penalizada por isso.

Infelizmente, as mães ainda enfrentam discriminação no local de trabalho quando engravidam ou retornam da licença-maternidade. Como essa realidade pode ser transformada para garantir mais igualdade de oportunidades?

As empresas precisam começar a oferecer treinamento para seus funcionários, principalmente para as lideranças, sobre a importância de apoiar as mães trabalhadoras e ter estratégias de como fazê-lo de maneira adequada e sensível.

Além disso, é preciso tratar a licença maternidade como um direito para a mãe e um ganho para a empresa, pois uma mulher segura e acolhida, certamente é uma colaboradora muito mais valiosa que aquela que não encontra segurança psicológica no seu entorno.

A flexibilidade no local de trabalho é uma das possíveis soluções para que as mães possam conciliar suas responsabilidades familiares e profissionais. Você poderia compartilhar exemplos de empresas que adotam essa prática e os benefícios que elas têm colhido?

A flexibilidade no local de trabalho é uma das medidas mais importantes para tornar possível que uma mãe, principalmente nos dois primeiros anos de vida do bebê, consiga se manter empregada.

Recentemente a consultoria Great Places to Work (GPTW) premiou as melhores empresas de grande e médio porte para uma mulher trabalhar em 2022.

Entre as 20 melhores, estão nomes conhecidos como a Magazine Luiza, a campeã dessa edição, Banco Bradesco, O Boticário, Vivo e Deloitte.

Alguns benefícios que se destacam entre as premiadas estão relacionados à flexibilidade e são licença-maternidade estendida e afastamento por doença de dependente. E entre as demais organizações destacadas pelo ranking, existem outras iniciativas que beneficiam todos os funcionários, independente de gênero e tornam a parentalidade possível, o que impacta diretamente na vida das mães. Entre essas iniciativas estão o horário híbrido de trabalho, redução da jornada sem redução de salário e horário flexível na organização.

Existe uma ideia equivocada de que empresas que adotam medidas para equilibrar o trabalho e o cuidado com os filhos precisam lidar com grande demanda de recursos humanos e financeiros, sem trazer retorno imediato nos negócios, mas estudos mostram que o investimento corporativo na parentalidade como um todo e na maternidade em particular, melhora a imagem das organizações, reduz o absenteísmo, aumenta a produtividade e ajuda a reter talentos".

Oferecer amparo às mães no retorno ao pós-parto pode ser fundamental para garantir sua saúde mental e bem-estar. Quais são os principais benefícios dessa iniciativa e como as empresas podem oferecer esse tipo de suporte?

Empresas que adotam políticas claras e bem estruturadas de apoio à parentalidade, do lado das colaboradoras, observam redução dos índices de adoecimento mental, da Síndrome de Burnout, ansiedade e sobrecarga física e emocional. Do lado da corporação, percebe-se queda dos índices de absenteísmo e do presenteísmo, maior retenção de talentos e a criação de um clima organizacional muito mais positivo, que se reflete em melhora da produtividade e da performance.

Algumas estratégias podem ser seguidas para mudar a realidades das mães são:

  1. Ouvir as mulheres: as necessidades precisam ser contempladas e só elas conseguem dizer o que precisam

  2. Ter políticas de flexibilidade: trabalho híbrido ou home office, carga horária flexível, direito a horários para acompanhamento médico do filho, liberdade para comparecer em reuniões da escola 

  3.  Repensar a licença-maternidade e principalmente a licença-paternidade 

  4.  Incluir os homens da empresa nessa jornada, promovendo educação para a paternidade responsável e participativa. Criar filhos em conjunto é difícil, sozinha é muito pior. 

  5.  Rever os vieses do processo seletivo: não puna uma mulher por estar vivendo um momento tão poderoso que é a maternidade.  Oferecer suportes como o auxílio creche.

Por fim, como você acredita que o amparo oferecido pela empresa no retorno ao pós-parto pode beneficiar a saúde mental das mães? E quais são as principais medidas que devem ser adotadas para garantir que as mães se sintam acolhidas e valorizadas no ambiente de trabalho?

O amparo oferecido pelas empresas com medidas práticas de flexibilidade e suporte ao exercício da maternidade são fundamentais na promoção da saúde mental materna, na medida que reduzem o stress, a sobrecarga, a insegurança e a instabilidade financeira, que são ingredientes importantes de vulnerabilidade e adoecimento mental.

Além das medidas já destacadas, as empresas:

  1.  oferecer suporte emocional , por meio de programas de acompanhamento psicológico e grupos de apoio, para lidar com a pressão de ser mãe e profissional.

  2.  fazer um trabalho ativo de reconhecimento e valorização do trabalho das mães, para as que desempenham bem suas funções , garantindo que se sintam motivadas e sejam exemplo para as demais.

  3.  Treinar as lideranças para um cultura de feedbacks pautados na comunicação não violenta para que eventuais desempenhos ruins no período mais delicado da maternidade possam ser corrigidos e a performance melhorada, sem humilhações ou violência psicológica.

     Por último e não menos importante, gostaria de destacar a importância das discussões sobre parentalidade nos ambientes corporativos. A parentalidade que pra mim está bem representada pelo ditado africano que diz que "É preciso uma aldeia para criar uma criança" e é sobre quem tem ou pretende ter e até mesmo sobre quem perde um bebê, mas não se limita à função biológica. O exercício parental engloba todas as pessoas relacionadas à vida da criança e quando ele está plenamente contemplado, é fator de saúde física e mental das mães, que se verão assim desoneradas da difícil missão de carregar sozinhas a responsabilidade de criar os filhos que deveriam ser de toda uma aldeia.


Na sua estreia como colunista de Saúde na Revista Negra, Anatália Mendes traz uma reflexão provocativa: "SEM EDUCAÇÃO SEXUAL, A CULPA É SEMPRE DA LIBIDO?" Fundadora da Lavure, Anatália é especialista em prazer feminino, educadora sexual, palestrante e mentora. Não perca este artigo instigante e informativo. Clique para ler mais!

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